Você sabe como funcionava a hiperinflação nos gibis da Editora Abril durante os anos 90?
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"São Paulo, outubro de 1992.
Amigo Leitor,
Temos uma novidade muito importante, e em razão da estima e respeito que temos por você, não podíamos deixar de avisá-lo.
A partir de agora, vamos testar uma nova maneira de informá-lo sobre o preço de sua revista preferida da Abril Jovem.
O preço não será mais impresso na capa. Em seu lugar, você vai encontrar um código. Para conferir o preço, basta pedir a tabela ao seu jornaleiro. Na tabela, você vai encontrar todos os códigos e seus respectivos preços.
Como nossas revistas são feitas com antecedência, a decisão sobre o preço impresso nas capas ocorria muito antes das revistas irem para as bancas. Agora, com os código, a tabela vai para as bancas junto com as revistas. Isso é uma garantia para você de que o preço escolhido será o mais justo, (o menor possível) diante da inflação que assola o país.
Se o teste for bem sucedido, o que em parte depende de você, a tabela será adotada definitivamente.
Gostaríamos muito de receber suas sugestões e esclarecer quaisquer dúvidas que ocorram. Afinal, sua preferência por nossas revistas é motivo de grande orgulho para todos nós.
Um grande abraço,
Fábio Mendia - Diretor Gerente
Editora Abril Jovem S/A"
Olá, eu sou o João R do Lima. Eu sou designer, desenhista e eu gosto de pesquisar coisas, especialmente sobre quadrinhos.
O trecho que eu li agora pouco, eu retirei da edição "ALMANAQUE DISNEY Nº 256" da Editora Abril, publicado em outubro de 1992.
Eu não sei quão velho você é pra lembrar dessa época, mas outubro de 1992 é o FINALZINHO do governo do primeiro presidente eleito por voto direto no Brasil após ANOS de ditadura. Estávamos no mandato de FERNANDO COLLOR DE MELLO, um presidente conhecido como "CAÇADOR DE MARAJÁS", que se tornou chefe da nação através do voto popular com o discurso de que iríamos VENCER a INFLAÇÃO, abrir as portas do país e REDUZIR a máquina do Estado.
Collor renunciou o cargo e seu VICE-PRESIDENTE tomou posse em dezembro de 1992. A essa altura, a inflação era chamada de "HIPERINFLAÇÃO" e mais pra frente eu vou te dizer exatamente como isso funcionava, mas já pra te contextualizar, o caos era TAMANHO que o país estava INGOVERNÁVEL.
Só graças a essa hiperinflação que vivíamos, uma medida absurda e genial como a da EDITORA ABRIL pôde ser concebida. A flutuação monetária era tamanha que qualquer tipo de precificação antecipada se via defasada em UMA SEMANA. Pra evitar que a revista publicada pela editora DESSE PREJUÍZO com a venda DIAS depois de ter sido entregue ao jornaleiro, o jeito foi fazer isso: Criar uma tabela que mudava de preço frequentemente. Na capa das revistinhas, não havia mais informações de quanto custava o título, só o CITADO código (se te serve como curiosidade, o código da edição que eu li o aviso da Abril Jovem é Y3, não que isso te sirva pra alguma coisa, né?)
Só pra você ter noção do quanto a inflação comia o dinheiro das pessoas (e NEM SE INCOMODE de jogar o valor da moeda num conversor para real porque NÃO VAI DAR CERTO, pelo tanto que o dinheiro desvalorizava). Eu vou te exemplificar aqui, NA MESMA PUBLICAÇÃO, ou seja, no ALMANAQUE DISNEY, como os preços mudaram absurdamente somente no governo do Fernando Collor.
Então, o Almanaque Disney no inicio do governo do Collor custava 55 CRUZEIROS (vale lembrar que o presidente mudou de volta a moeda para cruzeiro, pois ANTES era o CRUZADO NOVO). Então, o Almanaque Disney número 227 em Abril de 1990 custava seus MÍSEROS 55 cruzeiros. Não sei mais quanto isso significava em dinheiro na época, mas parece pouco, certo?
Pois bem, DOIS MESES DEPOIS, em Julho de 1990, a edição número 230 já tava custando 65 cruzeiros. Parece um reajuste ok, apesar de cedo. Em outubro de 1990 (dois anos antes do aviso editora Abril dizendo que não ia mais imprimir preço nas capas dos gibis) a revista numero 233 já estava nos seus 110 cruzeiros. Um ano depois, em outubro de 1991, o valor do gibi já era de 640 cruzeiros.
Eu sei que você está impressionado nesse momento, mas isso tá LONGE de ser a inflação que faria uma das maiores editoras do país jogar a toalha em precificar suas revistas. Aqui, na verdade, começa a loucura dos preços de uma maneira INACREDITÁVEL, porque se em outubro o valor era de 640, em novembro já tinha subido para 930. No mês seguinte? 1300. Em janeiro já estava em 1700 cruzeiros, pra em fevereiro já ser 2100 e em março 2700.
Em junho de 1992 a revista já estava custando 4.650 cruzeiros. E meu amigo, se você achou os aumentos absurdos até agora, prepare-se pra cair da cadeira, porque de junho pra agosto, a revista deixou de custar 4.650 e passou a custar SETE MIL E NOVENCENTOS CRUZEIROS!
Pra você ter uma noção de quão grande foi a mudança de preço nesse período, se no começo do ano de 1990 a revista tivesse custando 55 centavos de real, no fatídico mês de agosto de 1992 ela estaria custando R$ 79!!! Num espaço de DOIS ANOS! É MUITO exagerado isso.
O mês de setembro não teve publicação do Almanaque Disney pra já no mês seguinte a publicação vir acompanhada do aviso.
Felizmente essa situação toda se normalizou após o surgimento do Plano Real e finalmente a Abril conseguiu voltar a colocar o preço na capa das revistas novamente.
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Obrigado por assistir até aqui e nos vemos em breve.
ALMANAQUE DISNEY - GUIA DOS QUADRINHOS
ALMANAQUE DISNEY - AVISO
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