Você sabe porque GIBI é sinônimo de histórias em quadrinhos?
Link do Canal no Youtube: http://www.bit.ly/joaordolima
Olá, eu sou o João R do Lima. Eu sou designer, desenhista e eu gosto de pesquisar coisas, especialmente sobre quadrinhos.
Gibi era nada mais, nada menos que o título de uma revista brasileira que publicava HQs diversas, como tiras e quadrinhos completos. Seu lançamento aconteceu em 1939.
Na década de 30, revistas de histórias em quadrinhos eram bem incomuns. Em 1934. Adolfo Aizen, recém chegado dos Estados Unidos, se mostrou interessado em publicar histórias em quadrinhos aqui no Brasil. Adolfo era um russo que se naturalizou brasileiro. Viria a ser conhecido uma década depois como fundador da editora EBAL, mas em 34 ele abordou Roberto Marinho, dono do jornal O Globo oferecendo a ideia de publicar "suplementos", que nada mais eram que encartes com tirinhas de personagens para crianças e adolescentes que viriam junto com o jornal.
Roberto, recusou. Aizen então resolveu procurar outro jornal que aceitasse a ideia e conseguiu, um chamado A Nação. Daí surgiu o Suplemento Juvenil.
O sucesso do Suplemento Juvenil foi tão grande que o dono do jornal O Globo se viu tentado a copiar a ideia... Ideia essa que ele mesmo havia recusado. Então em 1937, Roberto Marinho lançou PELO seu próprio jornal o encarte "Globo Juvenil" tentando surfar no sucesso do seu atual concorrente. Esses suplementos compilavam tirinhas diversas de personagens estrangeiros.
Achei que valia a pena contextualizar esse pedaço pra você que tá me assistindo, entender que o dono da Globo não tinha medo de copiar a fórmula do que tava fazendo sucesso e o mesmo aconteceu com o GIBI.
O sucesso do Aizen foi tão grande que ele achou que valia a pena criar sua própria editora e publicar uma revista, dessa vez desvinculada de um jornal, só com histórias em quadrinhos. Sendo assim, o russo criou o "Grande Consórcio de Suplementos Nacionais" um nome gigantesco pro que era na verdade: uma pequena sala no primeiro andar de um edifício na Rua Treze de Maio, no centro do Rio de Janeiro.
E sob esse grande nome, Adolfo lançou MIRIM em 1937. A revista foi um sucesso imediato. Como eu te disse, não havia muito essa de publicações só com quadrinhos. A revista brasileira publicava quadrinhos diversos, desde tiras à histórias completas curtas compondo antologias, já que esse formato mix era muito comum. Só pra você recordar, a lendária Action Comics número 1 é lembrada até hoje por apresentar ao mundo o Superman, mas essa não foi a unica história publicada nas páginas da publicação americana. Só pra te dar uma noção, além do Homem de Aço, a revista trouxe em suas 67 páginas: Chuck Dawson, Zarata, Sticky-Mitt Stimson, The Adventures of Marco Polo, Pep Morgan, Scoop Scanlon e Tex Thomson.
Com o sucesso de MIRIM, Roberto Marinho pensou em repetir o feito do Globo Juvenil: copiar na cara dura a concorrência. Sendo assim, como MIRIM era um termo para criança, infantil ou juvenil, ele não pensou duas vezes em pegar um nome semelhante para estampar sua publicação rival. O nome "Gibi" tinha como significado regional "garoto negro ou negrinho". Já ouvi dizerem que também significava "moleque", mas eu tenho certeza que a definição de um garoto negro era a mais certa para o dono da Globo porque a primeira revista GIBI que foi publicada 1939 estampava no topo um garoto negro, com camisa branca e bermuda vermelha. Ele estava parcialmente coberto pelo título da edição.
Abaixo dele estava a informação que aquela edição trazia 32 páginas, a mesma quantidade que a concorrente MIRIM (só que a publicação do Aizen não trazia essa informação na capa). Do outro lado, a informação do preço, também o mesmo do concorrente: 300 réis. Entre os personagens publicados no Gibi estavam Ferdinando (Família Buscapé ), Charlie Chan,Brucutu, entre outros!
Tá, essa é uma história muito bacana, mas eu te prometi contar porque o nome da revista se tornou sinônimo de histórias em quadrinhos, certo? Faria mais sentido MIRIM ter se tornado, já que surgiu primeiro e teve 2 anos entre seu surgimento e um concorrente ter aparecido. Um ano depois do GIBI, também surgiu uma revista chamada O GURI (que até a edição 24, vinha com um Y no lugar do I). O Guri surgiu primeiro pelo jornal Diário da Noite e em seguida foi continuada pela editora O Cruzeiro.
Então... Apesar de MIRIM ter vindo primeiro, GIBI era mais popular. Também foi mais duradoura. Só pra você ter noção, a revista da globo teve 1739 edições enquanto a do Grande Consórcio de Suplementos Nacionais teve 1225 entre aspas. E eu boto umas aspas bem grandes aqui, porque 634 edições do MIRIM vieram mesmo da editora do Aizen. Em 42, o russo tava endividado e vendeu o Consórcio para o jornal A Noite que deu continuidade com a revista MIRIM por mais 591 números, mantendo a numeração anterior.
MIRIM também era problemática nas capas. Enquanto GIBI mantinha seu layout de capa tradicional, praticamente imutável toda semana desde 1939 até seu término em 1950, MIRIM passou por diversas reformulações, desde o logotipo até as capas, que mudavam fontes, disposição de imagens e tinham um visual bem mais pobre. A ex-publicação do Aizen claramente não era tão popular quanto a do Marinho e a prova disso foi que a da Globo viveu, na época, quase 1 terço a mais que a do concorrente. Aliais, isso aconteceu também com os suplementos. Enquanto o Suplemento Juvenil teve 1726 números e foi de 1934 até 1945, o Globo Juvenil teve 2051 edições e foi de 1937 até 1952.
Fica evidente que a Globo sabia fazer melhor, mesmo copiando o concorrente.
Outro ponto forte para marcar na cabeça o nome GIBI foi a quantidade de revistas que surgiam com esse nome pela própria Globo para firmar a marca com o leitor. A MIRIM teve, basicamente, só 4 séries de revistas (MIRIM pelo Consórcio, MIRIM pela A Noite, Biblioteca MIRIM - que compilava histórias da revista MIRIM em volumes grandes de 300 páginas - seguida pela Novíssima Biblioteca MIRIM, que era apenas a continuação da Biblioteca anterior que foi interrompida por causa da guerra). Só pra te lembrar também: nenhuma publicação da MIRIM passou dos anos 40. Todas morreram até 47. Já GIBI teve diversas. Aqui vai uma breve lista de ALGUMAS (não são todas) publicações sob esse nome: Gibi Semanal (de 1939 a 1950), Coleção GIBI (de 1940 a 1951), Gibi Mensal (de 1941 a 1952), Gibi - Edição de Natal (de 1944 a 1959), Novo Gibi (de 1950 a 1954), Gibi Mensal (de novo) (de 1952 a 1963), Superalmanaque do Gibi (1964), Gibi Apresenta (de 1965 a 1968), Almanaque do Gibi (de 1967 a 1968), Almanaque do Gibi Colorido (1968), Gibi Coleção (de 1974 a 1975), Gibi Semanal (de novo) (de 1974 a 1975), Gibi Especial (1975), Almanaque do Gibi (de novo) (de 1975 a 1977), Almanaque do Gibi Encadernado (1977), Gibi de Ouro (1985), Gibi (de 1993 a 1994) entres outros...
Nossa, quanta coisa, né? E olha que faltou um monte de Gibi Apresenta ou revistas da Turma da Mônica que tem o nome Gibi nelas. Só no que eu citei aí foram 17... E isso porque não citei TODOS os títulos da Globo com nome de Gibi. Citei apenas os principais. Contrasta isso com os 4 MIRIM. Sendo que eu fui benevolente dizendo que são quatro, porque quando saiu do Consórcio e foi para A Noite, eu contei como duas publicações separadas de MIRIM, apesar delas manterem a numeração. Além disso, a Biblioteca MIRIM também contei separado da Novíssima Biblioteca MIRIM, apesar de ser exatamente a mesma publicação, que só foi interrompida.
O nome Gibi pela Globo teve muito mais impacto. Foi muito mais forte e presente na vida dos leitores que MIRIM ou O GURI. Com o tempo, a própria Globo começou a atribuir o nome "Gibi" à revistas de história em quadrinhos. Isso aconteceu, por exemplo quando ela começou a publicar o título "Gibizinho" que vinha acompanhado do nome de um personagem do Maurício de Souza que figurava a história (então era "Gibizinho da Mônica" ou "Gibizinho do Cebolinha", saca?). Também teve o "Gibizão da Turma da Mônica" e o "Cinegibi".
Então, respondendo à pergunta depois de muito enrolar, o motivo de gibi ser sinônimo de quadrinhos é a forte presença de marca que a Globo fez, a popularidade de publicação, o grande número de títulos ao longo das décadas e a ressignificação da palavra pela própria Globo.
Se você achou essa informação interessante, clica em gostei no vídeo. Se inscreva no canal pra não perder as próximas atualizações e recomende esse vídeo pras outras pessoas.
Caso você queira me acompanhar nas redes sociais, eu tô no Twitter, Instagram e Facebook. Me segue lá.
Link do Canal no Youtube: http://www.bit.ly/joaordolima
Todas as informações desse vídeo eu retirei do site Guia dos Quadrinhos