O que você sabe sobre a MORTE DO SUPERMAN?
Link do Canal no Youtube: http://www.bit.ly/joaordolima
Olá, eu sou o João R do Lima. Eu sou designer, desenhista e eu gosto de pesquisar coisas, especialmente sobre quadrinhos.
Talvez você nunca tenha lido a história em quadrinhos da DC "A MORTE DO SUPERMAN", mas você provavelmente a conhece por ter sido levemente adaptada para o cinema através do filme do Zack Snyder "BATMAN V SUPERMAN". Ou talvez você a conheça por QUASE ter sido levemente adaptada para o cinema no filme que nunca saiu chamado "Superman Lives" que seria dirigido pelo Tim Burton e teria o Nicholas Cage como Super Homem. Talvez você também possa conhecer essa história por ter sido totalmente adaptada no filme animado de 2018 "A MORTE DO SUPERMAN".
De alguma maneira você sabe que o Superman morreu e você certamente sabe ou imagina que isso veio dos quadrinhos, mas o motivo desse gibi existir foi por causa... do seriado de TV "Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman" (de 1993). Não tá entendendo nada? Calma que eu explico tudo e te darei todo o contexto de como aconteceu a morte do maior super herói de todos os tempos.
Em 1985, a DC fez o mega-evento CRISE NAS INFINITAS TERRAS (que teve uma adaptação pra TV pelas séries da The CW em 2019, olha só). Quando a CRISE terminou, todo Universo DC foi reiniciado e dado a novos artistas. O título do Superman foi para o recém-chegado na DC, John Byrne (se fala JOHN BÃNRNE), artista famoso por ter feito diversos títulos na Marvel, incluindo "A SAGA DA FÊNIX NEGRA" (que já teve adaptação pro cinema... DUAS vezes, em 2006 no X-Men - Confronto Final e em 2019 no Fênix Negra ).
Ao final da fase do Byrne, o Superman contava com 3 revistas mensais que se interligavam, contando assim uma única história continuada. As três publicações eram: SUPERMAN, ACTION COMICS, THE ADVENTURES OF SUPERMAN.
O editor da revista, Mike Carlin teve a ideia de montar novas equipes criativas para substituir o recém-saído Byrne. Sendo assim, Jerry Ordway começou a escrever THE ADVENTURES OF SUPERMAN, enquanto Roger Stern assumiu ACTION COMICS e a revista SUPERMAN.
Enquanto era um autor só coordenando as 3 revistas, as histórias eram mais fáceis de serem interligadas, mas quando equipes diferentes foram designadas para manter as revistas, isso se tornou difícil. Piorou quando o editor-chefe, Paul Levitz, entusiasmado com o sucesso das 3 revistas, resolveu criar mais uma, a SUPERMAN: THE MAN OF STEEL que teria a Louise Simonson no comando.
Pra coordenar isso tudo, havia a "super reunião" anual, para todas as equipes se encontrarem e discutirem os planos do Homem de Aço para o ano seguinte. Essas reuniões eram frequentemente disfuncionais, com muita discussão, briga e ideias sendo jogadas pra lá e pra cá. Quando as equipes de roteiristas estavam tendo problemas para decidir as histórias e em algum momento ficavam travadas, Jerry Ordway gritava como solução em tom de brincadeira "vamos matar o cara". Todo mundo ria e depois voltavam a discutir seriamente os eventos.
Apesar de muita gente estar trabalhando nas revistas, com a saída do Byrne, a popularidade das publicações caiu muito. As vendas não estavam boas e, além disso, a popularidade dos heróis agressivos e violentos como o Justiceiro e Wolverine estavam só aumentando. Estava começando a ERA DOS ANTIHERÓIS.
Apesar disso tudo, a equipe do Superman estava se mantendo no planejamento do personagem. A edição 500 da THE ADVENTURES OF SUPERMAN estava chegando e eles já estavam com tudo planejado anos antes para comemorar essa edição fazendo o Clark Kent se casar com a Lois Lane, então aos poucos eles foram preparando isso durante anos de revista.
Eis que acontece o anúncio da série de TV "Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman" (que estrearia em Setembro de 1993). Com isso, a presidente da DC na época Jenette Kahn e o editor do Superman, Mike Carlin acharam que seria uma boa ideia coordenar o casamento dos quadrinhos com o da TV, já que o seriado se focaria muito mais no relacionamento dos dois personagens do que na ação.
Os problemas aí eram que: o seriado não tinha plano algum de quando isso ia acontecer (ou se isso sequer ia rolar, já que das duas uma: ou a série seria um fracasso e seria cancelada logo na primeira temporada fazendo que o tal casamento na TV nunca acontecesse ou a série seria um sucesso enorme o que faria com que o seriado enrolasse isso o máximo possível para segurar a audiência).
Quando a equipe de artistas da revista do Superman recebeu a notícia, eles ficaram extremamente abalados e ressentidos. Hollywood estava estragando uma programação de ANOS. E pior: ele nem faziam ideia de QUANDO iam poder contar essa história do casamento, pois se o seriado se estendesse por anos sem o casamento rolar, eles teriam que ficar enrolando com outras histórias até a oportunidade chegar.
Aquela "super reunião" foi a mais difícil de todas, segundo o Mike. Nada parecia rolar até que, tipicamente, Jerry Ordway gritou novamente em tom de piada "vamos matar o cara" depois de um longo período de travamento de ideias.
Mas dessa vez, ninguém encarou como piada. Louise Simonson falou, com base na experiência que ela tinha durante o tempo que trabalhou nos X-Men para a Marvel, que matar um personagem importante "mostra o quanto aquele personagem significa - para seus amigos, família, inimigos, para o mundo inteiro!". A história do casamento era pra ser na edição comemorativa de THE ADVENTURES OF SUPERMAN 500, então a morte do personagem poderia ser um evento igualmente significativo, mas matar o personagem é algo simples. A pergunta que ficou na sala era "Ok, vamos mata-lo, mas e depois? O que vem a seguir?" e aí que a reunião se destravou e seguiu o rumo com todos os planejamentos.
Mike Carlin sempre insistiu que a história da Morte do Superman não era exatamente sobre a morte do personagem, mas sim do que viria a seguir. Como seria um mundo sem o Homem de Aço? Isso foi o que mais povoou aquela reunião. O que fazer depois. Como os personagens reagiriam? Como Metrópolis reagiria?
O editor também sempre deixou claro que o Azulão não ficaria morto por muito tempo. Realmente ele não ficou, mas ele diz que ele ficaria morto por muito menos tempo do que ele realmente ficou. A ideia era matar ele na Superman 75 (publicada em fevereiro de 1993) e traze-lo de volta na THE ADVENTURES OF SUPERMAN 500, o que faria ele ficar 1 mês morto, mas invés disso ele ficou 6 meses (reaparecendo oficialmente novamente na SUPERMAN THE MAN OF STEEL 25 - publicada em setembro de 1993). Eu já falo um pouco mais sobre esse lance das datas de publicação, porque essa história é interessante.
Mas então, se eles tavam com a ideia de voltar com o Homem de Aço em pouco tempo, praticamente um mês depois, por que mudou? O que aconteceu?
O problema todo aconteceu por um motivo: solicitações.
Nos Estados Unidos, não existe mais mercado de banca. Lá funciona da seguinte maneira: a comicshop faz a encomenda dos gibis que quer pra editora, assim a editora faz uma tiragem praticamente exata do quanto vai vender. E pra fazer essa encomenda com a editora, as comicshops precisam ter acesso à uma prévia e resumo do que vem por aí. Esse catálogo se chama "Previews" e vai pras comicshops pros donos e clientes saberem o que vai ser publicado daqui a três meses. Aí o consumidor diz o que dali vai querer, o lojista anota e faz a encomenda pra editora. Funciona como aquelas revistas da Avon e Natura, sabe?
Como nessas revistas tem que ser anunciado o que vai ser publicado, a Morte do Superman teve seu spoiler dado ali. O que pra equipe do Superman seria algo natural, mas por algum motivo a mídia fora dos quadrinhos se interessou naquilo. Logo, jornais e veículos de transmissão de fora dos quadrinhos começaram a anunciar que o Superman ia morrer. E como não eram jornalistas acostumados aos quadrinhos de super heróis, ele não pensaram que logo logo o Homem de Aço voltaria. Pra toda grande mídia, essa morte era em definitivo.
Isso se tornou uma bomba atômica. Rapidamente foi um caos. O que era pra ser um evento apenas pra encher as páginas porque os planos do casamento foram frustrados, se tornou o mega evento do personagem. Foi aí que TUDO mudou! Mike Carlin chegou a declarar que na época, um jornalista lhe perguntou agressivamente "como você ousa tirar o Superman das pessoas" e ele retrucou "qual foi a última vez que você comprou um gibi do personagem". Após um momento de vergonha, a resposta foi que fazia uns 20 ou 30 anos. Carlin diria no futuro "o mundo não estava dando valor ao Superman, então vamos mostrar como o mundo seria sem o Superman".
Com uma repercussão tão grande sobre a morte do Azulão, a equipe teve que se reunir às pressas para pensar sobre como trazer ele de volta de uma maneira digna. Não que os planos anteriores não fossem dignos, mas com o estardalhaço que tudo se tornou, a volta do Homem de Aço tinha que ser muito mais épica do que eles imaginavam, ou todo mundo iria se revoltar achando que foi enganado.
Pra isso, eles armaram um plano elaborado. Agora eu volto ao lance das datas de publicação. A equipe resolveu que após a morte do Super Homem, haveriam algumas edições pra lidar com o velório do herói. E depois disso eles "atrasaram" entre aspas as publicações por 3 meses. Isso foi pra que gerasse a sensação momentânea de que o personagem tinha morrido mesmo e não haveriam mais revistas. As 4 publicações do Super não tiveram edições por 2 meses INTEIROS para manter essa sensação.
Após a morte, a ultima edição publicada foi SUPERMAN 77 em março de 1993. A próxima edição só viria parar nas prateleiras das lojas em junho de 1993 com THE ADVENTURES OF SUPERMAN 500, uma edição especial que comemoraria a volta do personagem... Mas não foi bem assim. A equipe descobriu que trazer o herói de volta dos mortos era muito mais difícil que matá-lo de fato e no meio da discussão de como seria feito isso, eles tiveram a ideia de que trazer uma nova versão do personagem seria mais interessante, no entanto os autores não concordavam em como deveria ser essa versão. Cada equipe de uma das 4 revistas resolveu criar seu próprio personagem e aí eles fariam uma votação de qual era o melhor, mas no final de tudo, Louise Simonson sugeriu que todas as ideias fossem usadas e cada equipe trabalharia com o herói que criou. Assim, além de gerar uma resolução diferente pra história, daria autonomia pra cada equipe trabalhar na própria revista sem se preocupar em se conectar com a revista do outro, mesmo que fosse por pouco tempo (lembre-se que as histórias eram totalmente conectadas de uma revista pra outra).
Aliais, as revistas eram tão conectadas que em um momento a DC resolveu fazer um "triângulo" e estampá-lo na capa das edições do escoteiro azul para que o leitor entendesse a ordem de leitura. Isso começou em SUPERMAN 51 publicada em Janeiro de 1991 e funcionava da seguinte maneira: no triângulo que apontava pra baixo vinha no topo o ano da publicação e abaixo um número. Na edição de SUPERMAN 51, o topo do triângulo tinha o ano de 1991 e abaixo o número 1. E edição que teria o número dois nesse triângulo seria THE ADVENTURES OF SUPERMAN 474. A 3? ACTION COMICS 661. A 4 já voltaria pra SUPERMAN 52. No meio desse caminho surgiu a SUPERMAN: THE MAN OF STEEL em julho de 1991 (criada pelo Paul Levitz que eu citei mais cedo, lembra) e ela já entrou nesse mesmo esquema do triângulo. Só pra constar, a edição 1 do SUPERMAN: THE MAN OF STEEL veio com o 19 no triângulo.
Quando passava de um ano pro outro, a numeração era reiniciada e o ano no topo do triâgulo era atualizado.
Outro comentário interessante é que a partir da edição 497 da THE ADVENTURES OF SUPERMAN iniciou-se uma contagem regressiva de uma forma muito criativa, através da quantidade dos quadros que teriam em cada pagina. Então na THE ADVENTURES OF SUPERMAN 497, a gente tinha a edição inteira com 4 quadros por página. Já a ACTION COMICS 684 (que era a seguinte) vinha com 3 quadros por página. SUPERMAN THE MAN OF STEEL 19 foi a próxima com 2 quadros por página. Concluindo na SUPERMAN 75 onde só haviam splash pages, ou seja, apenas um único gigantesco quadro por página até a morte do Super Homem, o que deu a explosão e a sensação de ápice da batalha que a edição tanto precisava. Foi uma decisão genial, na minha humilde opinião.
Voltando ao tópico da nossa conversa, da reunião de emergência surgiram 4 novos personagens: SUPERBOY (que odiava ser chamado assim), ERRADICADOR, SUPERCIBORGUE e AÇO. O AÇO você pode até se lembrar porque ele teve um filme vergonhoso cujo jogador de basquete Shaquille O'Neal interpretava o personagem.
Eu não vou entrar nos méritos de explicar os personagens e a história por trás deles porque isso é mais fácil e divertido se você ler. Saíram dois encadernados pela Panini Comics chamados A MORTE DO SUPERMAN VOLUME 1 E 2 que você pode procurar. Se tiver link deles disponíveis ainda, vou deixar na descrição. Mas o que fica é que o Superman não retorna de verdade na edição 500 da THE ADVENTURES OF SUPERMAN, mas sim na SUPERMAN: THE MAN OF STEEL 25, publicada em Setembro de 1993.
Bem, acho que essa é toda história por trás da morte do Homem de Aço. Como curiosidade, após o retorno de Superman, a equipe das revistas teve outra ideia para enrolar enquanto esperava o casamento acontecer na TV que demoraria mais um bocado, então eles separaram o casal na edição 720 da ACTION COMICS e na edição 115 de SUPERMAN Lois chega a deixar os Estados Unidos para se tornar correspondente estrangeira. Nesse ponto o plano era ter um longo arco de história que resultaria na Lois percebendo que ela ainda tem sentimentos pelo Clark Kent, culminando na volta dela aos Estados Unidos para se casar com o Homem de Aço. Isso daria tempo para o seriado desenvolver o casamento e eles publicarem ao mesmo tempo que o episódio fosse ao ar, mas os produtores do programa de televisão resolveram adiantar o casamento para o episódio "Swear To God This Time We're Not Kidding", que é o terceiro da quarta e ultima temporada da série, o que pegou toda equipe de quadrinhos desprevenida e tendo que correr para fazer a publicação do casamento. Isso resultou numa conclusão apressada do arco da Lois no exterior que se resolveu na revista SUPERMAN 118.
O quadrinho SUPERMAN THE WEDDING ALBUM foi publicado para comemorar o casamento do personagem nas duas mídias.
Se você achou essa informação interessante, clica em gostei no vídeo. Se inscreva no canal pra não perder as próximas atualizações e recomende esse vídeo pras outras pessoas.
Caso você queira me acompanhar nas redes sociais, eu tô no Twitter, Instagram e Facebook. Me segue lá.
Link do Canal no Youtube: http://www.bit.ly/joaordolima
Guia dos Quadrinhos
A MORTE DO SUPERMAN VOLUME 1 E 2